A ligação da palavra e da oração - Conecteca da Vida

A palavra e a oração

trecho de: A ORAÇÃO DO SENHOR
ARTHUR W. PINK

Depois de tudo o que foi dito e escrito por homens piedosos sobre a oração, precisamos de algo melhor do que aquilo que seja de mera origem humana para nos guiar, se queremos cumprir corretamente esse dever essencial. Quão ignorantes e pecaminosas são as criaturas para tentarem vir perante o Deus Altíssimo, como elas devem orar de modo aceitável a Ele e para obter dEle aquilo de que precisam, só pode ser descoberto na medida em que o grande Ouvidor da oração se agrade em revelar a Sua vontade a nós. Isto Ele fez: (1) abrindo um novo e vivo caminho de acesso à Sua presença imediata até para o maior dos pecadores; (2) designando a oração como o meio principal de intercurso e benção entre Ele e o Seu povo; e (3) fornecendo graciosamente um padrão perfeito segundo o qual as orações do Seu povo devem ser moldadas. Note a sábia instrução dos teólogos de Westminster: “Toda a Palavra de Deus é de utilidade para nos dirigir na oração, mas a especial regra de direção é aquela forma de oração que Cristo ensinou aos Seus discípulos, comumente chamada de Oração do Senhor” (Catecismo Menor de Westminster). Desde tempos antigos, ela tem sido chamada de “Oração do Senhor”, não porque seja uma oração que Ele Mesmo dirigiu ao Pai, e sim porque foi graciosamente fornecida por Ele para nos ensinar tanto a maneira como o método de orar, e as coisas pelas quais orar. Por isso deveria ser grandemente estimada pelos cristãos. Cristo conhecia tanto as nossas necessidades como a boa vontade do Pai para conosco, e assim Ele misericordiosamente nos forneceu uma direção simples, mas abrangente. Cada parte ou aspecto da oração está incluído aí. A adoração encontra-se em suas cláusulas de abertura e a ação de graças na conclusão. A confissão está necessariamente implícita, pois aquilo que é pedido supõe a nossa fraqueza ou pecaminosidade. As petições provêm a substância principal, como em toda a oração. A intercessão e súplica pela glória de Deus e pelo triunfo do Seu Reino e vontade revelada estão envolvidas nas três primeiras petições, ao passo que as quatro últimas dizem respeito à súplica e intercessão concernentes às nossas próprias necessidades pessoais e às dos outros, conforme é indicado pelos pronomes no plural. Esta oração encontra-se duas vezes no Novo Testamento, sendo oferecida por Cristo em duas ocasiões diferentes. Isto, sem dúvida, é uma sugestão para os pregadores reiterarem aquilo que é de importância fundamental. As variações são significativas. A linguagem de Mateus 6:9 sugere que esta oração nos é dada como um modelo, contudo, as palavras de Lucas 11:2 indicam que ela deve ser usada por nós como uma forma. Assim como tudo o mais na Escritura, esta oração é perfeita – perfeita em sua ordem, construção, e palavreado. Sua ordem é adoração, súplica, e argumentação. Suas petições são em número de sete. Ela é virtualmente um epítome dos Salmos e um sumário mui excelente de toda oração. Cada cláusula dela ocorre no Antigo Testamento, denotando que nossas orações devem ser escriturísticas, se hão de ser aceitas. “E esta é a confiança que temos nEle, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a Sua vontade, Ele nos ouve” (1 Jo 5:14). Mas não podemos conhecer a Sua vontade se formos ignorantes acerca da Sua Palavra. Tem-se alegado que esta oração foi designada apenas para uso temporário dos primeiros discípulos de Cristo, até que o tempo do Novo Concerto fosse inaugurado. Mas, tanto Mateus como Lucas escreveram seus Evangelhos anos após a dispensação cristã ter começado, e nenhum deles fornece qualquer indicação de que ela houvesse se tornado obsoleta, e não fosse mais de utilidade para os cristãos. Sustenta-se por alguns que esta oração não é apropriada para os fieis agora, porquanto as petições dela não são oferecidas em nome de Cristo, e não contêm nenhuma referência expressa à Sua expiação e intercessão. Mas este é um sério equívoco e engano; pois, por paridade de raciocínio, nenhuma das orações do Antigo Testamento, com efeito, nenhum dos Salmos, poderia ser usado por nós! Mas as orações dos fiéis do Antigo Testamento foram apresentadas a Deus em Seu nome; e Cristo era o Anjo do Concerto, de Quem fora dito: “Meu nome está nEle” (Ex 23:20, 21). Não apenas a Oração do Senhor deve ser oferecida em confiança na mediação de Cristo, mas é aquela que Ele especialmente nos direciona e autoriza a oferecer. Em tempos mais recentes, certos “estudantes de profecia” têm objetado ao uso desta oração baseados em argumentos dispensacionalistas, argumentando que ela é uma oração exclusivamente judaica, e legalista em seu teor. Mas isto não é nada mais nada menos do que uma ruidosa tentativa de Satanás de privar os filhos de Deus de uma porção valiosa do seu patrimônio. Cristo não ofereceu esta oração aos judeus enquanto judeus, mas aos Seus discípulos. Ela é dirigida ao “Pai nosso”, e, portanto, deve ser usada por todos os membros da Sua família. Ela está registrada não apenas em Mateus, mas também em Lucas, o Evangelho gentio. A injunção de Cristo, após a Sua ressurreição, para que Seus discípulos ensinassem os fiéis a observarem todas as coisas que Ele lhes havia mandado (Mt 28:20) inclui o Seu mandamento em Mateus 6:9-13. Não há absolutamente nada nesta oração inapropriado para o cristão de hoje, e tudo o que há nela é indispensável para ele. Por muito tempo tem sido uma questão de disputa, que tem dado origem a muita controvérsia amargosa, se a Oração do Senhor deve ser considerada como uma forma a ser usada ou um padrão a ser imitado. A resposta certa para esta questão é que ela deve ser considerada como ambas as coisas. Em Mateus, ela é manifestamente apresentada como um exemplo ou padrão do tipo de oração que deve ser oferecida sob a nova economia. “Portanto, vós orareis assim”. Devemos orar “com aquela reverência, humildade, seriedade, confiança em Deus, interesse pela Sua glória, amor pela humanidade, submissão, moderação nas coisas temporais, e zelo pelas coisas espirituais que ela inculca” (Thomas Scott). Mas, em Lucas 11:2, encontramos nosso Senhor ensinando isto: “Quando orardes, dizei: …”, ou seja, devemos usar Suas palavras como uma fórmula. Então, é o dever dos discípulos de Cristo, em sua oração, tanto usar a Oração do Senhor continuamente como um padrão quanto, às vezes, como uma forma. Quanto àqueles que objetam ao uso de alguma forma de oração, devemos lembrálos de que o Próprio Deus muitas vezes põe na boca de Seu povo necessitado a própria linguagem que eles devem empregar ao se aproximarem dEle. Por exemplo, o Senhor diz a Israel: “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao Senhor; dizeilhe: Tira toda a iniqüidade, e aceita o que é bom” (Os 14:2). Sem dúvida, precisamos estar bem atentos contra a observância meramente formal, e ainda mais contra uma observância supersticiosa, da Oração do Senhor. Não obstante, devemos também diligentemente evitar ir ao extremo oposto, e nunca a empregar de modo algum. Na opinião deste escritor, ela deveria ser reverente e sensivelmente recitada uma vez a cada serviço público, e usada diariamente no culto doméstico. Que ela tenha sido pervertida por alguns, cujo uso demasiado freqüente parece equivaler às “vãs repetições” que o Salvador proibiu (Mt 6:7), não é um motivo válido para nos privarmos totalmente de oferecê-la no Trono da Graça no espírito que nosso Senhor inculcou e nas próprias palavras que Ele ditou. “Em cada expressão, petição e argumento desta oração, vemos Jesus: Ele e o Pai são um. Ele tem um ‘Nome’ dado a Ele que é acima de todo o nome. Ele é o bendito e único Potentado, e Seu ‘Reino’ domina sobre todos. Ele é o ‘pão vivo’ que desceu do Céu. Ele tinha poder sobre a terra para ‘perdoar pecados’. Ele é capaz de socorrer aqueles que são ‘tentados’. Ele é o Anjo que ‘livra de todo o mal’. O Reino, poder e glória pertencem a Ele. Ele é o cumprimento e a confirmação de todas as promessas divinas e certezas graciosas. Ele mesmo ‘o Amém, e a Testemunha fiel’. Bem denominou Tertuliano a Oração do Senhor de ‘o Evangelho abreviado’. Quanto mais claramente entendermos o Evangelho da graça de Deus, ‘o Evangelho da glória de Cristo’, mais amaremos esta oração maravilhosa, e, gloriando-nos no Evangelho, que é ‘o poder de Deus e a sabedoria de Deus’ para aqueles que crêem, nos regozijaremos com alegria inefável enquanto oferecemos as petições divinamente prescritas e esperamos respostas graciosas” (Thomas Houston).