AULA 07

AULA 07 - INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA

O que é Interpretação Histórica

 

Como o aluno já tem nos acompanhado até aqui, sabe que nosso objetivo é facilitar, mesmo quando encaramos assuntos mais técnicos e complicados. Mantendo nosso objetivo de tornar mais fáceis as lições, vamos começar com um caso.

 

Em Efésios 3.20 temos um verso bem conhecido:

 

Àquele que é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo com o seu poder que atua em nós,” (Efésios 3.20)

 

Quando estudamos esse verso usando a Interpretação Histórica, vasculhamos os fatos envolvidos nesse texto e descobrimos uma torrente de acontecimentos maravilhosos da ação de Deus.

 

A obra de Deus foi tão estrondosa em Éfeso através do Apóstolo Paulo que fazem-nos olhar para os grandes feitos do Antigo Testamento como uma sombra ainda bem pequena da realidade da Igreja em Éfeso. O deus Dagon(1 Sm 5); a queda de Jericó (Josué 5 e 6), a vitória de Davi contra Golias(1 Sm 17) e muitos outros relatos da vitória de Deus sobre seus inimigos são apenas apontamentos para o que o Senhor ainda haveria de fazer e fez em Éfeso.

 

A grande cidade de Éfeso era a capital da adoração da deusa Diana, a Diana dos efésios. Pessoas de todas as partes do mundo vinham à Éfeso para adorá-la. Havia um comércio bem consolidado, forte e massivo em torno do culto à Diana. A vida das pessoas, desde suas finanças até á sua devoção, circundava em torno dessa adoração.

 

O relato do nascimento da igreja em Éfeso se encontra em Atos 19. Paulo e um punhado de discípulos que ali se encontravam, pregaram o Evangelho e o Senhor derramo-se com tanto poder que as pessoas que praticavam feitiçaria voluntariamente chegaram a fazer um montão de livros e queimá-los. Livros naquela época eram artigos raros e caríssimos.

 

Ninguém em sã consciência esperava jamais que essa idolatria poderia ruir, até lá chegar o Evangelho. Lá não somente nasceu uma igreja, mas nasceu, cresceu e se fortaleceu a igreja que se tornaria a congregação mais forte dentre as demais, para onde Paulo enviou Timóteo, o pastor que assumiria a liderança após sua morte.

 

O que você leu acima é um brevíssimo resultado de uma Interpretação Histórica. Agora você tem um vislumbre do que Efésios 3.20 quer dizer.



Immer chama a Interpretação Histórica de “Explicação Real” pela grandeza que tem esse estudo. Mas o que é mesmo Interpretação Histórica(de agora em diante IH)?

Interpretação Histórica é o “estudo da Escritura à luz das circunstâncias históricas que deixaram sua marca nos diferentes livros da Bíblia”.

Em palavras simples, a Interpretação Histórica é uma pesquisa e uma reflexão sobre os fatos e sobre as condições envolvendo as pessoas da época em que o texto foi escrito, procurando primeiro na própria Bíblia e depois em outras fontes de informações seguras sobre o que estava acontecendo.

É importante frisar que a Interpretação Histórica, embora leve o nome de histórica, não se refere apenas ao conhecimento dos fatos ocorridos, mas o sim a tudo que está ligado a esses fatos como costumes, princípios morais e religião do povo entre o qual e para o qual foram compostos os textos bíblicos.

A Importância



Costuma-se entender a Interpretação Gramatical como uma interpretação lógica, mas a IH(Interpretação Histórica) é viva, real. Pela IH você poderá ver com clareza a ação de Deus na vida dos autores, dos oradores, dos ouvintes originais e de todos os envolvidos no contexto histórico da época.

 

A IH pode em alguns casos, alterar drasticamente a interpretação de uma passagem ou lançar luz sobre uma passagem que, para nós hoje, permaneceria obscura e sem sentido.

 

Dois exemplos breves:

 

1º) A exigência do uso do véu na Igreja de Corinto(1 Coríntios 11) é mais fácil de ser compreendido quando se estuda os costumes daquela região na época em que Paulo escreveu a Carta àquela igreja.

 

2º) A resistência do profeta Jonas diante da ordem de Deus de pregar em Nínive não era uma mera oposição gratuita. Não era um homem cheio de caprichos. Nos tempos de Jonas, Nínive era a grande capital do Império Assírio. Esse Império era famoso pela prosperidade, mas também pela extrema crueldade; conhecidos também pela prática do empalamento – uma das formas mais horríveis já inventadas de tortura e assassinato. Esse Império era uma das principais ameaças às nações vizinhas inclusive Israel. A rejeição de Jonas, portanto, é compreensível.



Um pregador que ignora a IH pode cair em graves erros de interpretação ou mesmo deixar a mensagem empobrecida.

 

Alguns pressupostos da Interpretação Histórica nos ajudam compreender melhor sua importância.  Vejamos!




Princípios Básicos



1) A Palavra de Deus teve a sua origem de uma forma histórica e só poderá ser entendida à luz da História.

2) Uma palavra nunca é completamente entendida até ser apreendida como palavra viva, isto é, originária da alma do autor.

3) É impossível entender um autor e interpretar corretamente suas palavras sem que ele seja visto à luz da sua experiência histórica.

4) O lugar, o tempo, as circunstâncias e a visão prevalecentes do mundo e da vida em geral irão naturalmente alterar os escritos produzidos sob tais condições.



Exigências ao Intérprete

 

1) Ele deve buscar conhecer o autor cuja obra quer explicar – conhecer seus parentes, caráter, temperamento, suas características intelectuais, morais, e religiosas e as circunstâncias externas da sua vida.

 

2) Será sua obrigação reconstruir, tanto quanto possível, a partir dos dados históricos disponíveis e com o auxílio das hipóteses históricas, o ambiente no qual os escritos particulares em consideração se originaram – história, costumes, princípios morais e religião do povo entre o qual e para o qual foram compostos os textos bíblicos.

 

3) Ele deve descobrir a importância extrema de se considerar as várias influências que determinaram mais diretamente o caráter dos escritos em consideração, tais como: leitores originais, propósito que o autor tinha em mente, idade do autor, sua estrutura mental e as circunstâncias especiais em que compôs seu livro.

 

4) Ele deve transferir-se mentalmente para o primeiro século da nossa era e para as condições orientais da época.



O PERIGO FUNDAMENTAL PARA O INTÉRPRETE:

“A voz que escuta seja o eco de suas próprias ideias” (Bible Student, Vol. III, No. II – McPheeters)



Onde Conseguir Recursos

Há duas fontes de recursos, fontes internas e externas. O pregador consciencioso procurará primeiramente as fontes internas.

  1. FONTES INTERNAS.

São os auxílios encontrados na própria Bíblia. São todas as informações que você pode obter sobre o autor, o orador, os leitores, a história, a geografia, os costumes etc que são relatados na Bíblia.

Veja uma exemplo simples:

Se você irá pregar sobre alguma passagem que fale de algum samaritano, faz-se necessário você procurar em toda Bíblia o que é dito e ensinado sobre os samaritanos e sobre Samaria.

MEMORIZE ISTO: O pregador crente perguntará primeiramente: O que a Bíblia diz?

Somente depois você deverá passar saber sobre as fontes externas.

  1. FONTES EXTERNAS

Como já era de se esperar, as fontes externas são todas aquelas que não se encontram nas Escrituras. São de dois tipos: Inscrições dos tempos do AT e do NT e escritos históricos. Como exemplo temos: Tábuas de Tel-el-Amarna, Código de Hamurabi, inscrições dos reis babilônicos e assírios, inscrições em papiros e ostracas egípcios; destacam-se como escritos históricos Antiguidades Judaicas e Guerras Judaicas de Flávio Josefo, A História de heródoto, Talmude etc.

Um Caminho de como Fazer

Com este passo-a-passo resumido, você poderá fazer uma boa Interpretação histórica.

1) DESCUBRA AS CARACTERÍSTICAS PESSOAIS DO AUTOR OU ORADOR

  1. a) Quem é o Autor?

A primeira pergunta deve ser sobre o Autor. Alguns livros da Bíblia nomeiam seus autores, outros não. É o caso por exemplo da carta de Paulo aos Romanos e da carta aos Hebreus; na primeira o nome do autor está logo no primeiro verso, já na carta aos Hebreus não temos uma autoria clara. Mas quando se pergunta quem é o autor, não se tem em mente meramente saber seu nome; é preciso saber sobre seu caráter, temperamento, disposição e modo habitual de pensar. Como exemplo temos Paulo e Lucas. Paulo é um autor mais propositivo, Lucas é mais descritivo(Explicaremos isso mais adiante).

Uma dica importantíssima sobre como conhecer um autor: A maneira mais fácil de conhecer um autor é lendo e estudando tudo o que ele escreveu sem envolver-se com outros autores até ter feito tudo. Exemplo: Quer conhecer sobre Davi? Leia tudo o que foi escrito por Davi e não se envolva com outro autor até terminar essa tarefa.

Há casos em que as histórias se cruzam. É o caso de Paulo e Lucas. Para conhecer Paulo, você terá que ler o relato de sua história escrita por Lucas em Atos dos Apóstolos.

Procure não apenas estudar, procure familiarizar-se com o autor. Você se familiariza com um autor quando você se torna capaz de pensar semelhante a ele. Se você estudar bastante as cartas de Paulo, ler, recitar e pesquisar; chegará a uma familiaridade tão grande que começará a escrever parecido com Paulo, falar parecido com Paulo e até perceber em outros livros um raciocínio semelhante ao de Paulo. Você chegará a um ponto em que, mesmo não tendo estudado uma passagem que Paulo escreveu, você poderá compreendê-la com facilidade por causa da sua familiaridade com o pensamento do autor.

Não esqueça de ver também sobre a profissão do autor.

 

  1. b) Quem fala?

Em alguns casos é preciso fazer distinção do autor do livro e o orador de alguma passagem no livro. É o caso do livro de Jó. Muitas vezes vê-se certos pregadores usando passagens do livro de Jó como se fosse Jó quem tivesse dito aquilo que na passagem está escrito, mas não; há no livro de Jó muitas passagens que são palavras dos amigos de Jó. Lembre-se que o Senhor repreendeu os amigos de Jó por não ter eles falado a verdade.

2) CIRCUNSTÂNCIAS SOCIAIS DO AUTOR

As circunstâncias sociais do autor são todas aquelas que não dizem respeito ao caráter, temperamento, profissão etc, coisas peculiares dele, mas dizem respeito àquilo que ele compartilha com o povo de sua época. Exemplo:

  1. a) Circunstâncias Geográficas.

Em muitos casos você terá que pesquisar sobre estas circunstâncias. Exemplo: Quando o Senhor chamou Gideão o que ele estava fazendo? Quando o Salmo 126 fala de torrentes no deserto do Neguebe, a que se refere?

Há várias obras sobre geografia da Terra Santa e você poderá encontrar isso gratuitamente na Bíblia The Word. Veja mais no canal do Youtube, Conecteca da Vida.

  1. b) Circunstâncias Políticas.

A política sempre marca a literatura de um povo. Um exemplo simples disso é a vida de João Batista e seu embate com as autoridades a ponto de ele ser decapitado. Paulo viveu um ambiente político relativamente diferente de João Batista. Davi foi um político. José do Egito, Daniel etc. Todavia, sempre deve ser pesquisado sobre isso mesmo quando o personagem não tenha um envolvimento direto com políticos. José e Maria tiveram de viajar na véspera no nascimento de nosso Senhor por causa de um senso exigido pelo imperador na época – esse senso fazia parte do plano de Deus para cumprir até mesmo o local do nascimento do Filho Amado.

Uma vez que o Senhor é Senhor de toda História, não há nada que não esteja imbuído em sua conspiração a nosso favor.

  1. c) Circunstâncias Religiosas.

Assim como as circunstâncias políticas, as circunstâncias religiosas são moldadoras de todo ambiente dos autores e dos ouvintes originais. Há muito o que dizer sobre esse assunto, mas basta fazer umas poucas citações aqui.

Quando se prega sobre o Antigo Israel, por exemplo, é preciso lembrar que a vida religiosa deles(assim como a nossa) oscilava de alto a baixo com muita frequência. Houve épocas em que Israel esteve ao pé do monte ouvindo a voz de Deus, mas houve períodos, como é o caso do períodos dos Juízes e do cativeiro, que Israel realmente abandonou os caminhos do Senhor. Isso deve ser levado em consideração.

As religiões pagãs também precisam ser pesquisadas, como é o caso do culto à Diana dos efésios, citada no inícios desta aula.

É extremamente importante estudar sobre o farisaísmo para compreender as parábolas de Jesus. Devo lembrá-lo aqui das fontes. A principal fonte para estudar o farisaísmo são os Evangelhos, mais propriamente Mateus 23.

3) CIRCUNSTÂNCIAS PECULIARES AOS ESCRITOS

Na outra dimensão das circunstâncias estão aquelas que são peculiares aos Escritos.

  1. a) Leitores e Ouvintes Originais.

Depois das características pessoais do autor, as características do leitor são as mais importantes. Não há um livro escrito em que o autor não tenha em grande importância os seus leitores.

Esse conhecimento é tão precioso e enriquecedor que, de fato, a Bíblia não poderá ser bem compreendida jamais sem ele.

A pergunta de ordem aqui é a seguinte: SERÁ QUE OS OS ESCRITORES ORIGINAIS COMPREENDERAM ESSA PASSAGEM COMO EU ESTOU COMPREENDENDO AGORA? Se suspeitar que não, faça toda lição novamente. Isso significa que você está errado. Deverá compreender a passagem como a comunidade à que ela foi destinada compreendeu.

Os livros falam muito sobre seus ouvintes/leitores. Por exemplo:

Por que a Carta aos Romanos é tão profunda? Certamente seus ouvintes eram maduros o suficiente para ouvir e compreender coisas tão grandiosas.

Por que a Carta aos Gálatas e tão dura? Certamente seus leitores estavam desertando da fé verdadeira.

Por que a Carta aos Coríntios fala tanto de conflitos e dons? Porque eles disputavam entre si exatamente nessa área da vida cristã.

Por que a Carta de Tiago fala tanto sobre obras da fé? Porque a igreja abandonou o cuidado.

Por que o livro de Apocalipse usa tanta linguagem do Antigo Testamento? Porque não somente seu autor era judeu, mas seus leitores certamente também o eram.

Por que o Evangelho de Mateus usa tanto palavras como “cumprir”? Por que foi escrito para mostrar a seus leitores que Jesus cumpria os requisitos de Messias profetizado no Antigo Testamento e esses leitores poderiam compreender muito bem isso.

  1. b) Propósito do Autor.

Nenhum autor bíblico sentou-se e pensou: “Acho que vou escrever qualquer coisa aqui, vai que cola!” De maneira alguma isso aconteceu. O que se vê claramente em todo texto bíblico é PROPÓSITO.

Esse propósito sempre tem a ver com alguma circunstância da época podendo e devendo ser aplicado aos dias de hoje, mas nenhum pregador deveria deixar de procurar saber qual era o propósito original.

Veja um exemplo:

“Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4.13).

Esse texto é frequentemente violentado pelos pregadores.

Geralmente se vê aplicando-se esse verso numa busca de um emprego novo. O contexto, no entanto, não permitiria uma aplicação tão reducionista como esta. Para interpretar bem esse verso é preciso saber qual o propósito de Paulo na carta aos filipenses e mais especificamente nesse capítulo.

 

Brevíssimo Exemplo

 

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/comentarios/romanos_amorese.htm

 

INTRODUÇÃO



A mais importante porção dos escritos apostólicos encontra-se, com toda a certeza, nas cartas do Apóstolo Paulo. As cartas apostólicas, como um todo, constituem-se num importantíssimo segmento do ensinamento neotestamentário, porque são um vasto celeiro de ensinamentos teológicos, doutrinários e morais. Marcam o momento em que a igreja sistematizou o conhecimento de Deus, até então expresso nos livros do Velho Testamento, e desenvolveu, inclusive a partir da nova ótica trazida por Jesus Cristo, uma nova compreensão da forma como deveria relacionar-se com o Pai. Surge, nesse período, de forma mais clara e didática, a doutrina da Trindade, os temas do amor de Deus, do chamado dos gentios, da salvação pela fé em Jesus Cristo, da ressurreição dos mortos, da vida eterna e tantos outros.

As cartas de Paulo, por seu turno, compreendem mais da metade de todo esse legado da igreja primitiva, e estão entre os mais importantes documentos que nos têm chegado às mãos.

Na sua grande maioria, tratam-se de escritos ocasionais, ou seja, nasceram da necessidade sentida pelo Apóstolo de intervir em alguma situação eclesiástica, onde não poderia fazê-lo pessoalmente. Ora, apresentava-se o caso de dirimir dúvidas doutrinárias, ora apaziguavam-se litígios, ora recomendavam-se ações, providências e posturas a discípulos, ou mesmo apresentava-se a compreensão que o Apóstolo tinha do plano salvífico de Deus, como forma de apresentação pessoal, anteriormente a uma visita.

Paulo não escrevia de seu próprio punho, conforme era costume dos escritores antigos. Antes, ditava-as a um amanuense de sua confiança. Ao final, apensava o Apóstolo, suas saudações finais, de punho próprio.

Dentre as cartas de Paulo, certamente, a Carta aos Romanos ocupa lugar de destaque. Alguém já a chamou de “evangelho dentro do evangelho”, dado à forma linear, sistemática, profunda e completa pela qual seu autor expõe sua compreensão do plano da salvação.


AUTORIA

A autoria de Paulo da carta aos Romanos é universalmente aceita, não existindo contestação relevante, seja do ponto de vista documental, seja da alta crítica. Não somente ela vem declarada na sua costumeira saudação (cf. 1:1) como vem amparada por fatos históricos, tais como sua pretensão de ir a Roma (1:15, 15:24) em caminho para a Espanha, ou a referência à coleta feita em favor da igrejas empobrecidas de Jerusalém (15: 26-33), como ainda por referências próprias características, tais como a de ser apóstolo entre os gentios (cf. 15: 16; Ef 3:7,8; Cl 1:27; Gal 1:16). Acresce-se, ainda a esses elementos, referências a pessoas de conhecimento comum, tais como Febe, Priscila e Áquila e Timóteo, que se tornam elo importante entre o escritor e os destinatários.


DATA

Estima-se que este texto tenha sido escrito no inverno de 57-58 d.C., estando Paulo em Corinto, na casa de seu amigo Gaio, ao final de sua terceira viagem missionária aos territórios que margeiam o Mar Egeu e às vésperas de partir para Jerusalém, levando a oferta para os crentes pobres (15:22-27). O portador é uma senhora chamada Febe, de Cencréia, subúrbio de Corinto, que estava de saída para Roma (16: 1-2). Como não havia serviço postal particular no Império Romano da época, as cartas eram enviadas por viajantes de confiança.

DESTINATÁRIOS

Entendendo que concluíra seu trabalho evangelístico na região da Galácia, da Macedônia, da Acaia e da Ásia, com a fundação e estabelecimento de muitas igrejas; e entregues essas a seus pastores e líderes, Paulo planeja ampliar seu horizonte de evangelização. Queria campos novos para evangelizar para Cristo. Não querendo “edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15:20), decidiu ir à Espanha, a mais antiga colônia romana do Ocidente. Mas a ida à Espanha também lhe daria a oportunidade de realizar um antigo sonho. Como cidadão romano, por direito de nascença (At. 22:28) ele ainda não conhecia Roma. Seria, então unir o útil ao agradável, passar por Roma, em seu caminho para a Espanha.

Seu objetivo era preparar os cristãos de Roma para sua chegada. O núcleo dessa igreja formara-se, provavelmente, dos romanos que haviam estado em Jerusalém no dia de Pentecostes (At. 2:10). Nesse período de 28 anos a igreja cresceu, com cristãos provindos de vários lugares, sendo alguns deles amigos e discípulos de Paulo. A carta serve, portanto, como uma carta de apresentação, na qual o Apóstolo expõe, de forma sistemática sua compreensão do evangelho de Cristo, do qual se chamava apóstolo. Ele não chegará a Roma senão três anos depois de sua famosa carta.

Há boas razões para crer que esta carta tenha sido enviada a outras igrejas, além de Roma. Uma delas está na forma como termina o capítulo 15, fazendo crer que havia uma versão onde não constava o capítulo 16, pelo fato de este referir-se a pessoas conhecidas e tratar de assuntos bem particulares.


A MENSAGEM

O texto desta surpreendente epístola nos apresenta, de forma progressiva, a compreensão que seu autor tem da expressão de Habacuque 2:4: “O justo viverá pela sua fé”. Apresentando de outra forma esta expressão-chave, redigi-la-íamos, de forma livre, assim: “aquele que pela fé é justificado, terá vida eterna”. A Bíblia na Linguagem de Hoje fornece a seguinte tradução: “Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus”.

A carta de Paulo aos Romanos, como um todo, pode ser dividida nas duas partes: uma parte doutrinária (capítulos 1 a 11) e outra prática (capítulos 12 a 16). Dentro da parte doutrinária, Paulo desenvolve de forma soberba seu tema introdutório, deixando para a parte prática recomendações de santidade. Essa primeira parte, divide-a ele em dois segmentos. O primeiro, trata da iniciativa de Deus em relação à redenção humana (“aquele que pela fé é justificado)”, onde desenvolve os temas da justiça de Deus em condenar o pecador, da indesculpabilidade humana, da justificação do pecador e da aceitabilidade do homem diante de Deus, através da fé. O segundo segmento, (“viverá”), fala da vida prometida aos justificados por Deus, incluindo aí as expectativas de Deus quanto à resposta humana à sua iniciativa de amor.

Para desenvolver sua primeira parte do argumento, Paulo mostra que todos os homens precisam de salvação, porque, judeus ou não-judeus, todos são pecadores diante de Deus. Nesse movimento de raciocínio, o Apóstolo demonstra que tanto os homens depravados quanto os moralistas ou mesmo os religiosos são culpados diante de Deus. Uns pecaram sem conhecer a lei de Deus, e serão julgados de forma condizente; outros pecaram contra a lei de Deus, e serão julgados mediante a mesma. Dessa forma, Paulo conclui que “não há justo, nem sequer um” (3:10). Assim, se alguém tiver que ser justificado diante de Deus, não o será por meio de obras, mas tão somente pela sua graça, que é capaz de tornar justo o ímpio. Desta forma, Deus é apresentado como justo e justificador daquele que crê em Jesus.

Segue-se, ainda na parte doutrinária, uma exposição do poder de Deus em santificar o crente (capítulos 5 a 8) onde apresenta os temas da paz com Deus, da união com Cristo, da libertação do domínio da lei, da vida no Espírito e da vitória pelo Deus da graça.

Abre-se, então, um parêntesis no veio principal da argumentação do autor, onde se apresentam temas difíceis, relacionados à justiça de Deus na história humana (capítulos 9 a 11). Nesse parêntesis Paulo trata, com exemplos da história de Israel, da questão da soberania Divina, em contraposição à liberdade e responsabilidades humanas, colocando frente-à-frente, sem resolvê-los, temas aparentemente contraditórios e inconciliáveis como um Deus soberano que, todavia, responsabiliza o homem por seu mau caminho. Deixa, contudo, uma luz final, dizendo que o propósito final do Altíssimo é o de “usar de misericórdia para com todos” (11:32).

Segue-se a parte prática da carta que, iniciando no capítulo 12, segue até ao final, com recomendações à santidade e obediência na vida diária coletiva e individual. Nesta parte, após uma introdução na qual apela por consagração integral do cristão (12:1, 2), desenvolve recomendações de que o cristão se faça servo, seja no uso adequado dos dons, seja no uso do amor que vence o mal (12:3-21); de que o cristão se porte adequadamente como cidadão (13:1-14); de que o cristão manifeste sua salvação junto à igreja, seja no manejo da liberdade, seja no uso do amor altruísta (14:1-15:21).

CONCLUSÃO

 

Interpretação Histórica é a Interpretação Real e Viva. Tem como alvo de estudo o entendimento do que Deus planejou, fez e de como se relacionou com o autor/orador e os leitores/ouvintes originais, bem como com o mundo à sua volta no tempo em que o texto foi escrito. Tem como objetivo tirar as lições corretas para o dia de hoje fazendo a correta correlação do que Deus falou e como isso continua sendo voz dEle pra nós hoje, já que sua Palavra é Viva e Eficaz.

 

Há três pontos que o aluno não deve esquecer:

 

  1. Faça esta pergunta a si mesmo: Estou ouvindo a voz de Deus para os irmãos que a ouviram no seu tempo ou o que ouço é apenas o eco da minha própria vontade?

 

  1. O que o Autor/Orador pretendia ao escrever esse texto?

 

  1. Como os leitores/ouvintes originais entenderam esse texto?

 

  1. Qual a relação das lições desse texto com os dias de hoje em meu contexto?



Que o Senhor nos abençoe a sermos fiéis à sua vontade!



Ilton Freitas

Conecteca da Vida

 

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