Interpretação gramatical da bíblia - Parte I - AULA 08

AULA 08 - INTERPRETAÇÃO GRAMATICAL DA BÍBLIA - PARTE I

ESBOÇO GERAL DA LIÇÃO

INTRODUÇÃO

 

  1. Recursos Indicados

 

  1. Segmentação

        2.1.1 Longa

        2.1.2 Breve

 

  1. O Significado das Palavras

        

3.1 O significado Etimológico das Palavras

        3.2 O uso corrente das Palavras

        3.3 Palavras Sinônimas

 

INTRODUÇÃO

Esta é certamente a parte mais difícil do nosso Curso de Introdução à Pregação. Mas você não deve desesperar-se, pois nosso Deus nos dá vitória e sabedoria.

 

Lembre-se também de que, embora nosso curso siga a vertente mais trabalhosa e difícil, isto é, estamos estudando sobre a pregação expositiva, temos mantido aqui o compromisso de transmitirmos de forma bem simples o conteúdo das aulas.

 

Nosso livro texto para esta aula é “Princípios de Interpretação Bíblica – Para Orientação individual no estudo das Escrituras e para uso em seminários e institutos bíblicos” – Louis Berkhof – Editora Cultura Cristã. Seria bastante enriquecedor o aluno tê-lo e estudá-lo.

 

Há duas formas de estudar a gramática de um texto:

 

  1. a) Começar com as sentenças, as expressões de pensamento e depois estudar as palavras principais.

 

  1. b) Fazer o contrário, começar com as palavras e depois estudar as sentenças.

 

Nesta primeira parte veremos o primeiro desses dois tipos de estudo das palavras:

  1. I) Palavras Isoladas e
  2. II) Palavras em Seu Contexto.

 

Antes de tratarmos das palavras isoladas, no entanto, julgo ser importantíssimo apresentar alguns Recursos que facilitam sua pesquisa e em seguida compreender, mesmo que brevemente a Segmentação do Texto e da Seleção das Palavras-Chave.

 

Acredito que você irá gostar!

 

1. Recursos Indicados

  1.1 Recursos Gratuitos e Recursos Pagos

Veja em nosso artigo AUXÍLIOS EXTERNOS PARA A INTERPRETAÇÃO GRAMATICAL DA BÍBLIA

 

2. Segmentação

 

A segmentação facilita muito o entendimento de um texto. Experimente fazê-la sempre que possível.

 

Uma boa definição para segmentar pode ser:

 

substantivo feminino

  1. ato ou efeito de segmentar; divisão por segmentos; fracionamento.
  2. divisão do corpo em uma série de seções mais ou menos equivalentes.

Talvez você não saiba o que é uma segmentação e acredito que pode ficar mais fácil de ser entendida se dermos um exemplo primeiro. Então vamos lá! Temos aqui nosso texto bíblico com o qual estamos trabalhando:

TENDO sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo

(Romanos 5.1)

 

Veja agora esse mesmo texto com uma possível segmentação longa, isto é, com idéias mais longas.

 

  2.1 Segmentação de “expressão de pensamento”

        2.1.1 Longo

  1. TENDO sido, pois,
  2. justificados pela fé,
  3. temos paz com Deus,
  4. por nosso Senhor Jesus Cristo”

(Romanos 5.1)

 

Veja que eu separei o texto em ideias longas. Vamos fazer uma segmentação com unidades menores:

        2.1.2 Breve

  1. TENDO sido,
  2.      pois,
  3.          justificados
  4.              pela fé,
  5.              temos paz
  6.              com Deus,
  7.            por nosso Senhor
  8.                    Jesus Cristo”

(Romanos 5.1)

 

Veja duas diferenças da segmentação anterior para esta:

 

1) o espaçamento que eu coloquei para mostrar que uma ideia está subordinada à outra.

 

2) As ideias são mais curtas.

 

Vamos melhorar essa segmentação?  Sim. Vamos colocar palavras que revelam a lógica do texto:

 

  1. [QUANDO] TENDO sido,
  2. [CONFORME OS TEXTOS ANTERIORES] pois,
  3. [O QUÊ] justificados
  4. [COMO/QUAL MEIO] pela fé,
  5. [QUAL BENEFÍCIO/O QUE FOI FEITO] temos paz
  6. [COM QUEM] com Deus,
  7. [REALIZADOR] por nosso Senhor
  8. [QUEM É O REALIZADOR DA JUSTIFICAÇÃO QUE NOS TRAZ A PAZ] Jesus Cristo”

(Romanos 5.1)

 

Podemos melhorar muito essa segmentação, mas já deu pra você perceber a importância e a beleza da segmentação. Note que de um versículo tão pequeno, com uma simples segmentação, você pode extrair várias lições. Só esta parte da lição vale ouro!

Ótimo! Antes de fazermos o estudo das palavras isoladas, podemos aproveitar a segmentação para descobrir as palavras mais importantes do texto.

 

[ UMA ORIENTAÇÃO AOS PREGADORES “CRIATIVOS”:

Muitos pregadores se preocupam em ser “criativos” na pregação. Se com “criativo” você se preocupa em ter ideias claras da mensagem de Deus para transmitir, sua preocupação é legítima, mas essa preocupação acaba-se facilmente com a segmentação, pois a segmentação separa e organiza as ideias do texto tornando o entendimento muito mais fácil e fazendo brotar as ideias nele contidas.

 

Se com “criativos você acha que o pregador deva inventar ideias para sua pregação, fuja o mais rápido desse conceito! Nesse sentido, o predador tem de ser absolutamente sem “criatividade”, pois não estamos ali à frente de uma audiência(geralmente cativa) para transmitir ideias nossas, mas a Palavra de Deus.]

 

  2.2 Palavras Mais Importantes do Texto

As palavras que são mais importantes no texto nem sempre são aquelas que mais nos importam. As palavras mais importantes são aquelas que formam a essência da mensagem do texto e o diferenciam dos demais textos à sua volta.

 

Neste versículo em questão, temos: “JUSTIFICADOS” e “PAZ”.

 

“FÉ”, “DEUS” e “JESUS CRISTO” são importantíssimas para nós, mas não é o que caracteriza este texto, pois este versículo é trata do Primeiro Grande Benefício da Justificação Pela Fé em Cristo. Veja aulas anteriores.

 

As demais palavras que ficaram, também tem sua importância.

 

  1. O Significado das Palavras

“A Bíblia foi escrita em linguagem humana e, consequentemente, deve ser interpretada gramaticalmente em primeiro lugar”.

 

O primeiro estudo é o estudo etimológico das palavras.

 

 

  3.1 O significado Etimológico das Palavras

Esse é o estudo das palavras mais difícil de ser feito, mas não é o mais importante para a interpretação de um texto bíblico. Mesmo assim, devemos considerá-lo aqui em em primeiro lugar em nosso módulo de interpretação, porque é logicamente o que vem antes de qualquer outro estudo e por vezes contribui para lançar luz sobre uma palavra.

Mas o que é o estudo etmológico de uma palavra?

Um exemplo bem simples pode ajudar mais do que conceituar. Aproveitando esse período de eleições políticas em que este curso está sendo composto, vejamos a palavra “Candidato”.

“Candidato” é um susbstantivo masculino que em nossos dias significa 1. “aquele que aspira a um cargo, honraria, emprego etc”. Originalmente, isto é, em latim, significa “Aquele que é cândido”. Cândido é um adjetivo que significa “alvura, muito branco, pureza, inocência, ingênuo e que denota candura”, o contrário de “devasso”. Cândido, é Candidus em latim que é o mesmo que “branco, alvo, limpo”.

Essa qualidade de “candura” que o “cândido” possui, também pode significar “castidade”, sendo que o antônimo, isto é, o contrário de “candura” é “cinismo, malícia, velhacaria; ver tb. sinonímia de estroinice, indecência e lubricidade”.

Fonte: Dicionário Houaiss.

O que aprendemos da palavra “Candidato” com um estudo etimológico? Em nossos dias, um candidato deve ser no mínimo um “Ficha Limpa”.

Viu a riqueza que possui um estudo etimológico da palavra? Pesquise mais sobre isso. Faça sua curiosidade estar a serviço do seu crescimento!

O estudo etimológico da palavra busca as orígens dela, quando possivel for, o objetivo é descobrir como surgiu.

Mas se com toda essa riqueza o estudo etimológico da palavra ainda não é o mais importante para a interpretação bíblica, qual é o mais importante? Veja a seguir.

 

 

  3.2 O uso corrente das Palavras (REGRA DE OURO)

 

Palavras mudam de sentido no decurso dos tempos. Isso acontece em todas as línguas e temos de levar isso em consideração quando estudamos a Bíblia, pois esse é um fenômeno que sempre existiu.

 

A Bíblia foi escrita num período de aproximadamente 1600 anos entre o primeiro e o último livro escrito, portanto, muitas mudanças ocorrem nesse intervalo.

 

Um exemplo simples e atual:

 

Há algumas décadas atrás, a palavra “carregador” significava o que a originou, isto é, um homem “que carrega”. Mas agora, quando alguém fala esta palavra com você, o primeiro sentido que vem à mente é o de um dispositivo “que serve para carregar a bateria de aparelhos eletrônicos”.

 

Pode ocorrer o contrário também. Uma mesma coisa, pode mudar de nome:

 

Exemplo: VIDENTE na bíblia: “Pessoa que recebe, em visões, a mensagem de Deus. Nos tempos antigos os PROFETAS eram chamados de “videntes” (1Sm 9.9; Is 29.10; 30.10)” (Dicionário Almeida).

 

A pergunta a ser feita sobre o uso corrente da palavra é:

Qual o sentido de tal palavra no tempo em que o autor do texto bíblico em que ela se encontra?

 

Usando o nosso texto, Romanos 5.1, Qual o sentido da palavra “Justificados” na época em que Paulo escreveu?

 

ESTA É A REGRA DE OURO: O CONTEXTO DA PALAVRA SEMPRE DETERMINARÁ O SENTIDO DELA. 

 

Observe a palavra “PEDIR”(AITEIO, grego) no Novo Testamento. Kenneth Hagin, ensinava que uma vez que a palavra “pedir” no Novo Testamento etimologicamente significa também “ordenar”, então não deveríamos orar “pedindo”, mas “ordenando” a Deus, para que reçebamos as bênçãos dEle. O principal texto usado é “se me pedirdes alguma coisa coisa em meu nome eu vos darei” (Jo 14:14). Usando a interpretação de Hagin e seus seguidores ficaria: “se me ORDENARES alguma coisa coisa em meu nome eu vos darei” (Jo 14:14).

Uma pergunta simples deveria ser feita sobre essa questão: Por qual razão em nenhuma bíblia até hoje, a palavra AITEIO fora traduzida como “ordenar” nestes versos que tratam de oração? Será que todos os tradutores da bíblia erraram e somente Hagin acertou?

A resposta é muito simples. Assim como uma variedade de outras palavras que têm um campo lexical extenso, a palavra AITEIO deve ser interpretada de acordo com seu contexto. Se AITEIO for interpretada como ORDENAR, naturalmente seria uma ordenança à Deus. Coisa que é impensável em todo restante das escrituras.

Portanto, A PALAVRA SÓ PODE SER TRADUZIDA OU INTERPRETADA EM ACORDO COM SEU CONTEXTO.

 

 

  3.3 Palavras Sinônimas

A importância de se observar cuidadosamente o significado exato das palavras sinônimas pode ser ilustrado por alguns poucos exemplos. Em Is 53.2, três palavras são usadas para expressar a ausência da glória externa na vida do Servo do Senhor. Lemos: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo- lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse”. A primeira (hadar) designa um ornamento e, quando aplicada a Deus, descreve majestade. Ela refere- se ao modo como o Senhor apareceu entre os homens e não à sua forma física. Ele se manifestou em um estado de humilhação. A segunda palavra (tho ‘ar) significa “forma”, com a ideia adicional de beleza e, consequentemente, refere-se à forma da beleza corporal. Compare com ISm 16.18. E a terceira (mar ‘eh, de ra ‘ah, “ver”) refere-se, algumas vezes, a uma aparência externa que é a expressão da, e consequentemente em harmonia com a natureza essencial íntima do ser. Parece que o profeta quis dizer que a aparência externa do Senhor não era exatamente a que os judeus esperavam de um Messias.

O Novo Testamento fornece um belo exemplo em Jo 21.15-17. Quando o Senhor ressurreto indagou pelo amor do Pedro caído, usou duas palavras, a saber, agapao e phileo. A distinção entre as duas é feita por Trench nas seguintes palavras: “A primeira expressa um afeto mais racional de escolha e seleção, a partir do fato de se ver no objeto desse afeto algo que é digno de consideração; ou ainda, a partir de um senso de que isso é devido à pessoa então considerada, como um benfeitor ou semelhante; enquanto a segunda, sem ser necessariamente um afeto irracional, dá menos explicação de si mesmo a si mesmo; é mais instintivo, mais de sentimentos ou afeições naturais, implica mais paixão”. A primeira, baseada em admiração e respeito, é um amor controlado pela vontade e tem um caráter duradouro; enquanto a última, baseada na afeição, é um amor mais impulsivo e propenso a perder seu fervor. Assim, quando o Senhor fez a pergunta a Pedro pela primeira vez, “tu me amas?”, ele usou a primeira palavra, agapao. Mas Pedro não ousou responder afirmativamente à pergunta sobre se ele amava ao Senhor com um amor permanente que alcança seus maiores triunfos nos momentos de tentação. Assim, em resposta, ele usou a segunda palavra, phileo. O Senhor repetiu a pergunta e Pedro novamente respondeu da mesma maneira. Então o Salvador desceu até o nível de Pedro e, em sua terceira pergunta, usou a segunda palavra, como se ele duvidasse até mesmo do philein de Pedro. Não é de admirar que Pedro se entristecesse e fizesse um apelo à onisciência do Senhor.

 

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