Interpretação Teológica
Aula 10 - Interpretação Teológica

AULA 10 - A INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA

INTRODUÇÃO E DEFINIÇÃO

INTRODUÇÃO

Estamos chegando ao final do módulo que trata da Interpretação da Bíblia e esta aula, Interpretação Teológica, é uma das últimas. Convido você querido aluno, a ler os próximos parágrafos com muita paciência e atenção.

Ao ler pela primeira vez sobre Interpretação Teológica algumas pessoas se sentem inquietas, geralmente por dois motivos: alguns acreditam que teologia é algo extremamente difícil e essa crença lhes causa desânimo em estudar a Bíblia. Outros, acham que o conhecimento teológico “esfria” o cristão fervoroso. De fato, se seu fervor for fogo de palha a teologia poderá apagar esse fogo, mas se for verdadeiro, a teologia o ajudará a ser mais e mais fervoroso e você será muito abençoador e abençoado com ela.

Que o Senhor Jesus lhe dê do verdadeiro fervor dia após dia!

 

DEFINIÇÃO

 

Nas palavras de Henry Vickley a interpretação teológica “estuda o nível de compreensão teológica na época da revelação a fim de averiguar o significado do texto para seus primitivos destinatários. Assim sendo, ela leva em conta textos bíblicos relacionados, quer dados antes, quer depois da passagem em estudo”.

Para tornar mais clara esta definição, peço a você que pense na Interpretação Teológica da seguinte maneira. Imagine que alguém te perguntasse: o que é pecado segundo a Bíblia? Você não pode inventar o que é pecado. Então, na hora, você se lembra de textos que citam alguns pecados e faz a citação deles. O inquiridor que te ouve e sabe que você está citando pecados, mas não está definindo o que é pecado e você mesmo percebe isso. Então você se lembra de uma definição que o seu pastor disse numa pregação e você a cita: “Pecado é tudo aquilo que desagrada a Deus”. Bem, parece que você trouxe à conversa uma definição simples e boa, mas como podemos saber se isso está certo? O seu inquiridor insatisfeito lhe pergunta: “Como eu posso então saber qual é a vontade de Deus?” E você prontamente se lembra de uma definição que está na Bíblia: “Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei” (1 João 3:4). Ótimo! Isso já ficou espetacular! Agora sabemos que a quebra da Lei é pecado. Mas nosso inquiridor tem mais perguntas e ele lhe diz: “Então, meu amigo, o que a Bíblia ensina é que eu somente cometo pecado se eu transgredir um mandamento da Lei, por exemplo, se a Lei diz ‘Não adulterarás.’ eu estarei em paz se não adulterar, certo?” Nesse momento você se lembra do que Jesus disse: “Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela.”(Mt. 5.28). Aí você já sabe que o que a Bíblia ensina sobre pecado é muito abrangente. Soma-se a isso as dezenas de versos falando do pecado de várias outras maneiras e trazendo várias outras revelações sobre o que é pecado.

O que esse diálogo hipotético acima nos ensina? Que a Definição de Pecado é uma declaração simples e breve de um apanhado imenso de afirmações bíblicas, analisadas e sintetizadas depois de um bom esforço de estudo. Isso é uma interpretação teológica de um tema, no caso o “pecado”. 

Graficamente seria assim:

Muitos textos sobre “pecado” + análise desses textos + sumarização da análise = definição bíblica de “pecado”.

Quando você estuda uma Teologia Sistematica (e é altamente recomendável que você leia algumas) o que você é a grosso modo esse processo. 

Agora, suponhamos que você vá interpretar um versículo para pregar com base no mesmo. Citamos como exemplo, (Romanos 6:23), “Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”.

Ao interpretar o versículo você inevitavelmente terá que ter uma definição clara do que é pecado na Bíblia, pois o contexto da palavra “pecado” neste versículo nos mostra que Paulo não está tratando de um pecado específico, como adultério, mas do pecado num geral.  Então, você terá que ter um conhecimento básico do que toda Bíblia fala sobre o que é pecado para poder interpretar bem este texto.  Este é o trabalho da Interpretação Teológica. 

 

I – NECESSIDADE DA INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA

 

Você provavelmente já ouviu algumas pregações de um mesmo pregador em que as contradições teológicas são gritantes e irreconciliáveis. Algumas vezes isso chega ao absurdo de acontecer na mesma pregação. Eu mesmo já ouvi mensagens em que o pregador falava da salvação como sendo possível somente pela fé, mas pouco tempo depois ele dizia que sem tais obras, como o batismo, a homem não pode ser salvo. A confusão nos púlpitos evangélicos têm aumentado dia após dia por causa da péssima interpretação da Bíblia.

 

Sem uma boa Interpretação teológica podemos estar dizendo para nossos ouvintes que Deus tem um caráter instável, que Deus é um ser inseguro, confuso. Ou então podemos dizer que, embora Deus seja Perfeito e de caráter Estável, a revelação que Ele nos deu na Bíblia é absolutamente confusa e estamos lançados à deriva no mar da desordem e do caos.

II – DIFICULDADE DA INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA

a- Problema histórico:

O Liberalismo Teológico e a Neo-Ortodoxia causaram profundo estrago na interpretação da bíblia, especialmente na interpretação teológica. Isso ocorreu devido à duas doutrinas principais, caríssimas à Igreja em sua história, a saber a Inerrância das Escrituras e a Unidade da mesma. Até hoje, muitos teólogos, e claro, muitos evangélicos não acreditam mais na veracidade plena da Bíblia e não são poucos que questionam sua Unidade.

b) Mas em que a Inerrância das Escrituras afetam a Interpretação Teológica?

– Se partirmos do entendimento que a Bíblia contém erros, quando nos depararmos com dois textos aparentemente contraditórios, nossa tendência será considerar que um deles está errado ou mesmo que os dois estão errados. Não haverá, portanto, sentido procurar no restante da Bíblia esclarecimento sobre a passagem que estamos tentando interpretar.

– Se partirmos do entendimento que a Bíblia NÃO contém erros, quando nos deparamos com dois textos aparentemente contraditórios, nossa tendência será DIFERENTE, será a de procurar encontrar elementos que provam que esses textos não são plenamente contraditórios, mas até mesmo podem ser complementares.

Um exemplo disso é a justificação para a salvação. Paulo é assertivo em dizer que a Justificação é pela fé somente. Tiago  parece dizer-nos, se fizermos uma leitura rápida, que além da fé é preciso fazer boas obras para ser justificado. Será que Paulo e Tiago estão em contradição? Depende do que você crê sobre a Bíblia. Se você acreditar que a Bíblia contém erros, provavelmente você não terá muitos motivos para se esforçar em encontrar harmonia entre Paulo e Tiago, mas se, pelo contrário, você crer que a Bíblia não erra no seu propósito em revelar a verdade de Deus à nós, então certamente você procurará encontrar “um modo exegeticamente justificável de resolver qualquer aparente discrepância”.

b) E a Unidade/Descontinuidade, em poderiam afetar a Interpretação Teológica?

Unidade diz respeito ao fato de que a Bíblia tem apenas um Autor Primário(Deus), embora tenha diversos autores secundários(Moisés, Davi, Paulo, João etc). O Autor Primário não se contradiz. Ele manteve os autores secundários, por meio da inspiração, alinhados ao seu maravilhoso propósito, de forma tão excelente que, por mais que um autor tenha divergido de outro na sua linguagem, cultura, ênfases e estilo, jamais eles divergiram do propósito do Autor Primário.

A Descontinuidade trata-se da perda parcial ou total dessa Unidade que falamos acima em algum ponto histórico ou em algum assunto das Escrituras. Por exemplo: Alguns teólogos desconsideram o Antigo Testamento e dizem que somente o Novo Testamento deve ser ouvido. Para eles há uma descontinuidade entre o AT e o NT.

E é assim que a questão da Unidade/Descontinuidade da Bíblia afeta profundamente a Interpretação Teológica. Imagine que você seja um Descontinuísta e se depara no Novo Testamento com um texto sobre a Lei. Como você o interpretaria se para você o Antigo Testamento tenha pouco ou nenhum valor? É claro que para um Continuísta a visão seria diferente.

Aqui o problema fica um pouco mais complexo, pois há diversos níveis e continuístas e descontinuístas.

Grande parte dos evangélicos são mais ou menos continuístas. Isso é natural, uma vez que as Escrituras por muitas vezes escancaram alguma continuação do Antigo para o Novo Testamento, como se pode ler a título de exemplo “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, o qual foi prometido por ele de antemão por meio dos seus profetas nas Escrituras Sagradas”(Romanos 1:1,2). Geralmente aliancistas são mais continuístas e dispensacionalistas são menos continuístas.

A posição da Conecteca da Vida é mais continuísta, podendo ser expressa nas palavras de Berkhof: “As considerações puramente psicológicas e históricas não explicarão os seguintes fatos: que a Bíblia é a Palavra de Deus; que ela constitui um todo orgânico, do qual cada livro individual é uma parte integral; que o Antigo e o Novo Testamentos estão relacionados um com o outro como tipo e antítipo, profecia e cumprimento, embrião e desenvolvimento perfeito; e que não só as declarações da Bíblia, mas também o que pode ser deduzido a partir dela pela lógica, constitui a Palavra de Deus”. Contudo, cada aluno deve procurar aprofundar nesse estudo para que tenha sua própria definição.

Como esta é uma aula de introdução ao assunto, não podemos tratar detalhadamente aqui. Mas deixamos um capítulo digitalizado do livro Hermenêutica Princípios e Processos de Interpretação Bíblica – Interpretação Teológica – Henry A. Virkler, que poderá te esclarecer melhor. Clique no botão abaixo para baixar:

 

III – UM CAMINHO SEGURO PARA A PRÁTICA DA INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA

Os próximos três passos são de um caminho seguro para que você possa pôr em prática a Interpretação teológica

 

a) NÃO PERMITA QUE SUA TEOLOGIA DETERMINE A INTERPRETAÇÃO DO TEXTO

Esse primeiro passo é um requisito imprescindível para uma boa interpretação. Embora já tenhamos tratado bastante desse assunto na introdução do curso, vale fazer este alerta com letras garrafais. Haverá em você uma fortíssima tendência de apenas defender sua teologia quando você estiver interpretando a Bíblia e isso pode ser nefasto à sua interpretação.

Um exemplo: Se a sua teologia concebe a salvação como sendo pela fé mais as boas obras, você tenderá a ler textos tratando da justificação como sendo assim, fé mais obras.

 

b) É PRECISO PARTIR DE TEXTOS MAIS CLAROS PARA ELUCIDAR OS MAIS OBSCUROS

 

Há vários textos que possuem uma complexidade maior. São textos difíceis, obscuros ou que tratam parcialmente de uma verdade deixando dúvidas na cabeça do intérprete.  Faz-se necessário diante de textos mais obscuros a busca pelo mesmo assunto em outras partes da Bíblia, principalmente em textos mais claros e que tratam de forma mais completa sobre o assunto.

Devemos EVITAR interpretações que exijam verdadeiras ginásticas mentais.

 

c) CONSIDERE A PROGRESSIVIDADE DA REVELAÇÃO

 

A terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, o grão cheio na espiga — Mc 4:28

Algumas verdades foram reveladas em semente no Velho Testamento, e só no Novo Testamento encontramos sua plena expressão.

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” – (Hebreus 1:1)

Observe por exemplo a questão do templo no Antigo Testamento como “casa de Deus”, já no Novo Testamento nós somos “santuário do Espírito”.

Não vamos detalhar aqui este assunto, pois facilmente pode ser obtido em bons comentários, além disso o objetivo dessa lição é ser um guia rápido e fácil para os iniciantes.

 

d) COMPARE ESCRITURA COM ESCRITURA

 

Misael Batista nos ajuda a compreender este tópico de uma forma simples:

“O melhor comentário sobre a Bíblia é a própria Bíblia. Compare os princípios encontrados com o restante das Escrituras. Se houver reafirmação da verdade, principalmente no Novo Testamento, devemos ensiná-la com convicção. Essa regra é chamada pelos intérpretes de “analogia das Escrituras”, e, bem utilizada, evita uma série de erros grosseiros de interpretação.

O intérprete realiza o seu trabalho convicto de que a Escritura não se contradiz. Algumas verdades são difíceis de conciliar, mas isso não significa que sejam excludentes.

Um exemplo disso é a questão da responsabilidade humana e da soberania divina. Os cristãos bíblicos aceitam ambos os ensinos como expressão da mais pura verdade de Deus. Aqui encontramos uma antinomia. Antinomia, conforme o Dicionário Aurélio, é o “conflito entre duas afirmações demonstradas ou refutadas aparentemente com igual rigor”. O problema, nas antinomias, não está na Bíblia, e sim na finitude de nossa compreensão. O fato de não entendermos alguma coisa não significa que ela esteja errada”.

 

CONCLUSÃO

 

Nossa experiência tanto na prática da interpretação quanto na observação de bons intérpretes da Palavra de Deus tem nos conduzido à convicção de que as práticas citadas acima nos dá um caminho seguro para a Interpretação Teológica sensata. Considere praticá-la em seus sermões sempre que for prepará-los.

Leia também os textos disponíveis em nosso BLOG como leitura complementar.

Que o Senhor Jesus lhe conceda espírito de sabedoria e prudência para a vida e forte iluminação do Espírito no entendimento das Sagradas Escrituras.

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